Capítulo 1 — O conceito original de Ekklesia e Qahal
“À igreja de Deus… aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo.”
Imagine que você passou a vida inteira acreditando que a palavra “Tribunal” significa “Teatro”. Você compra o ingresso, entra no prédio, senta na plateia, assiste a um espetáculo no palco, bate palmas e vai embora achando que cumpre o seu papel de cidadão perante a justiça. Anos depois, alguém abre o código de leis da cidade e lhe mostra que um Tribunal nunca foi um lugar de entretenimento, mas um espaço de julgamento, onde leis são aplicadas, causas são decididas e a ordem pública é mantida. É claro que você ficaria em choque. Você percebe que foi enganado não por falta de sinceridade, mas por uma alteração sutil no sentido da palavra. E é exatamente isso que atingiu a palavra “igreja”.
Para a maioria das pessoas no século atual, a palavra “igreja” evoca imediatamente três coisas: um prédio com fachada característica, uma instituição jurídica com CNPJ (uma “placa” ou denominação) e um evento religioso onde pessoas assistem a um líder no púlpito passivamente. Todavia, se você viajasse no tempo até o Primeiro Século e falasse a palavra Ekklesia para um judeu ou para um grego, nenhuma dessas três coisas passaria pela cabeça dele.
No mundo greco-romano, Ekklesia era um termo estritamente cívico e político. A palavra é uma junção de dois termos gregos: Ek (“para fora de”) e Kaleo (“chamar”, “convocar”).
Literalmente, a Ekklesia é a “assembleia dos chamados para fora”. Na democracia ateniense e nas cidades-estado da época, quando uma questão grave de governo precisava ser decidida, o pregador público (keryx) saía pelas ruas convocando os cidadãos plenos. Eles saíam de suas casas e de seus negócios particulares (ek) para se reunirem em uma praça pública ou anfiteatro. Ali reunidos, essa assembleia:
- Votava e promulgava novas leis;
- Declarava guerra ou selava tratados de paz;
- Julgava crimes de alta traição e julgava cidadãos;
- Elegia ou destituía magistrados.
Ou seja, a Ekklesia era uma governança, nunca foi um prédio ou algo do tipo.
Qahal (קָהָל) e Edah (עֵדָה)
Quando os sábios judeus traduziram as Escrituras Hebraicas para o grego (na versão conhecida como a Septuaginta, por volta do século III a.E.C.), eles precisavam de uma palavra grega para traduzir o conceito hebraico de Qahal, e a palavra escolhida por eles foi Ekklesia.
Na Torá Escrita, o Qahal é a congregação jurídica de Israel. A primeira grande aparição desse conceito está em Deuteronômio 9:10, referindo-se ao evento do Monte Sinai como Yom HaQahal, “O Dia da Assembleia”:
“E o Senhor me deu as duas tábuas de pedra, escritas com o dedo de Deus; e nela estava escrito conforme a todas as palavras que o Senhor tinha falado convosco no monte, do meio do fogo, no dia da assembleia (Yom HaQahal).”
No Sinai, o Qahal de Israel não se reuniu para praticar uma “religião”. Eles foram convocados para fora do Egito para assinar um contrato de aliança com Deus. Eles receberam a Torá, a “Constituição do Reino”, e assumiram a responsabilidade de cumprir e fiscalizar esses mandamentos.
Na Torá Oral (preservada no Talmud, na Mishná e nos códigos haláchicos), há uma distinção importante entre dois termos que alguns costumam confundir:
- Edah (עֵדָה): vem da raiz Ed (testemunha), e é a comunidade enquanto corpo passivo, o grupo de pessoas que testemunha algo ou compartilha a mesma identidade.
- Qahal (קָהָל): é a comunidade mobilizada para ação judicial ou militar. O Qahal exige quorum, ordem, responsabilidade e cumprimento da instrução.
Portanto, quando as Escrituras falam de Qahal ou Ekklesia, estão se referindo a um corpo funcional de governança, pessoas constituídas com autoridade legal para fazer valer a vontade de יהוה na Terra.
Mateus 16:18
Dito isso, agora vamos reler essa passagem tão importante para o nosso assunto. Quando Cristo olhou para os seus discípulos e declarou o texto registrado em Mateus 16:18, ele usou exatamente esse conceito que fora explicado.
“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”
Durante séculos, a Igreja Católica Apostólica Romana utilizou esse versículo como a sua certidão de nascimento e a justificativa para o primado do Papa, alegando que o apóstolo Pedro era a tal “pedra” sobre a qual a igreja foi fundada. A partir dessa premissa, construiu-se a tese de que a “igreja verdadeira” é a instituição que deriva da sucessão apostólica desse suposto primeiro Papa.
Contudo, essa interpretação não se sustenta diante de uma análise bíblica e linguística:
“A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina (a pedra angular).”
O próprio apóstolo Paulo deixou claro a estrutura deste “edifício” que é a Ekklesia:
“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.”
“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina...”
Em Mateus 16:18 a Pedra a qual Cristo se refere é ele próprio, tanto é que a Igreja é chamada de corpo de Cristo, pois é fundamentada nele, o Cabeça. Se Pedro tivesse entendido que ele mesmo era a “pedra” que fundamentava a Ekklesia, ele teria reivindicado essa posição em suas cartas. No entanto, em sua primeira epístola, o próprio Pedro aponta para Jesus como a Pedra principal, e para os crentes como pedras vivas que fazem parte desse corpo:
“E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual...”
(Em um capítulo posterior, traremos uma análise minuciosa dos termos no grego original, demonstrando a diferença fundamental entre Petros e Petra, para mostrar que Cristo não esteve apontando para Pedro como o alicerce.)
Portanto, ao dizer “sobre esta pedra edificarei o meu Qahal”, Cristo apontava para Si mesmo, e que o corpo vivo da Ekklesia é o seu próprio corpo.
A função da assembleia
Definido que a Pedra principal é o Messias, Jesus prossegue no versículo 19 explicitando a função concedida ao Seu Qahal:
“E eu te darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.”
Para quem não conhece a Halachá da época, a expressão “ligar e desligar” (Asar v’Hatar) significa proibir e permitir.
- Ligar (Asar): proferir um veredito de que determinada conduta é proibida pela Torá.
- Desligar (Hatar): proferir um veredito de que determinada conduta é permitida pela Torá.
Ao usar essas palavras, Jesus estava constituindo a sua Ekklesia como uma assembleia legislativa do Reino de Deus. Ele outorgou aos seus discípulos a autoridade de aplicar a Torá de forma correta, proferindo sentenças que seriam ratificadas pela Corte Celestial.
A validação das ordens na Ekklesia
“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”
Do que se trata essa passagem? Toda a passagem de Mateus 18 trata de como lidar com ofensas, pecados e conflitos legais entre irmãos. Nos versículos 15 a 18, Jesus estabelece os passos de um “processo judicial”. E no versículo 16, Ele cita a exigência da Lei Escrita:
“Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pelo depoimento de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada.”
Ele estava citando o mandamento de Deuteronômio 19:15, que exige um quórum mínimo de testemunhas para que uma sentença seja proferida e validada em julgamento. Quando Cristo prossegue e diz: “porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”, Ele está dizendo: “Quando vocês precisarem julgar uma causa ou tomar uma decisão legal no meu Qahal, vocês não precisam reunir o Sanhedrin inteiro para ter autoridade. Se apenas dois ou três de vocês se reunirem sob a Minha instrução para aplicar a justiça, a Minha autoridade real estará presente com vocês, e a decisão de vocês será ratificada no Céu.”
Portanto, julgamentos feitos dentro da comunidade, instruções e coisas relacionadas são aceitas diante dos Céus desde que sejam proferidas por no mínimo 2 sábios da Ekklesia. Esse texto não tem nada a ver com o tema da comunhão, mas sim sobre questões jurídicas da comunidade verdadeira de Cristo.
A tradição
É importante ressaltar que Cristo não estava inventando um conceito novo. Para um judeu do Primeiro Século, a ideia de homens constituídos com autoridade para interpretar e aplicar a Lei de Deus na Terra era absolutamente comum.
Jesus reconheceu a legitimidade dessa cadeia de autoridade existente na sua época ao declarar aos seus ouvintes:
“Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Observai, pois, e fazei tudo o que vos disserem; mas não façais conforme as suas obras, porque dizem e não fazem.”
A “Cadeira de Moisés” era uma metáfora que simbolizava a autoridade dos grandes sábios de Israel. Cristo instruiu o povo a respeitar os ensinamentos emanados daquela corte, por mais hipócritas que os juízes fossem em suas vidas pessoais, porque a autoridade de ensinar e aplicar a Torá (Escrita e Oral) conferida a Moisés continuava válida na Terra e eles “herdaram” essa missão.